É possível dizer que minha relação com a comida chega a ser social. Existe um flerte tão misterioso entre a mente devoradora e o prato sempre galante, pronto a ensinar a mais profunda reflexão e admiração em torno de si mesmo.
Sou um daqueles de íntimo bem íntimo, mas posso me tocar com um belo aroma de alecrim.
Almoço todos os dias no restaurante por quilo Curumin, o chamado "quilo do povão" em uma praça onde o cacique é Stelle di Firenze.
Comidinha gostosa, variada, sem preconceito e até bastante saudável (ver glossário: pessoas lúcidas que se alimentam bem; fazendeiros engolidores de búfalos). O Curumin faz do boi da minha esfinge bem satisfeito, pronto para um belo repouso acompanhado de Chapolin.
Eis que dessa rotina, reservei um fim de semana em condições explêndidas para comemorar meus sensacionais 2 anos de namoro com a doce e bela Carol. Nada de arroz, feijão e bife. O negócio agora era sério.
Tudo começou bem antes do fim de semana, numa quarta, em que escolhemos uma mesinha com iluminação adequada, posta a favorecer um entreolhar sedutor, assuntos e risadinhas corteses e receber uma bela pizza. Salada caprese primordial termina, entra meia margherita, meia búfala. Fenomenal. Um belo aquecimento para fim de semana. Mais um mojito, uma Original bem servida e duas caipirinhas dariam ainda mais sentido a o que se pensa em aquecer.
Weekend on fire, estamos na serena praia de Maresias, sem o furor dos surfistas, pois o mar se punha como uma piscina em background a dois pombinhos apaixonados. Foi o momento perfeito para uma porção bem generosa de pescada, embora quiséssemos porquinho. O que não mudou em nada nosso prazer em devorar o peixe. Some algumas cervejas e uma caipirinha de maracujá e o dia estava fechado com chave de ouro. Após uma bela soneca de final de tarde, antes do passeio noturno, resolvemos comer alguma coisinha gostosa, já que a noite seria longa, com muita dança e remelexes a Coco Bongo. Terminamos em uma hamburgueria fenomenal, à la Joakin's, com um atendimento muito bom. Lógico, devoramos um sanduíche cada um e de saída ganhei de presente uma garrafinha de vidro de Pepsi, com o primeiro logo da marca. Coisa raríssima, que agora ostento no meu quarto.

A noite foi fechada com chave de platina, na verdade.
Na manhã de domingo, Carol e eu estávamos predispostos a completar a viagem com um dia de rainha e rei. Aproveitar todas as tentações daquele lugar tão delicioso. O resumo do dia começa com um café da manhã completo na pousada, com um bolo de laranja e chocolate de toque caseiro que rendeu elogios à gentil moça da cozinha e termina com uma porção de camarões à milanesa suprema e um açaí refrescantíssimo.
E foi isso. Dias de puro prazer gustativo. Eu sempre precisei disso. Pretendo repetir a dose, incluindo meus grandes amigos. A diversão seria catastrófica.
Voltando à raiz da questão, o título deste texto não teria sentido nenhum, se não pela descoberta que Carol e eu tivemos, na viagem de volta a São Paulo.
Quem já conhece a coisa, sabe que a volta entre São Sebastião e Bertioga pode ser um tanto tortuosa num domingo à noite, devido ao intenso tráfego putinho. Mas a companhia do meu amor no carro era muito relaxante e gostosa, conversávamos sobre assuntos diversos enquanto flertávamos restaurantes à beira da estrada e nos ocorria a ligeira intenção de parar num deles. Eis que decidimos realmente estacionar.
Descemos do carro, ambiente simples, sem frululus, decoração peculiar de conchas, areia ao chão, algo meio caseiro e acolhedor. O nome do restaurante, já vou adiantando, Índia das Ostras. Um nome à primeira vista indiferente. À primeira vista. Fomos atendidos por um rapaz muito atencioso, que nos entregou o cardápio e deixou à vontade o nosso momento de escolha.
Lembrem-se de uma coisa, quando forem a esse restaurante: Se 1 porção de algum prato serve 4 pessoas, realmente serve 4 pessoas. Se forem astuciosos como fui, e ainda auxiliados pelo atendente totalmente honesto, peçam meia porção, para 2. Por r$15, recebemos em nossa mesa uma tamanha travessa de risoto de camarão, que foi preciso muito controle para não sair cantarolando a música da vitória.
Foi o risoto de camarão mais delicioso que já experimentei. Um tempero forte, quente, à brasileira, ou melhor ainda, à la índia. Que estava lá. Quando me deparei com o logo do restaurante, o rosto de uma índia, esculpido em madeira, olhei para o lado e vi a mesma conversando com clientes que deveriam frequentar o lugar há uns 10 anos. O restaurante não necessitava nome. A comida falava por si. A experiente cozinheira falava por tudo.
Carol e eu ganhamos na loteria, ficamos muito agradecidos pela descoberta. Recomendamos o lugar a todos. Nossa conta deu 27 reais. Incluiu três refrigerantes, um suco gigantesco e meia porção de Risoto de Camarões, que dividimos entre nós, repetindo o prato 3 vezes e ainda levando para casa o que restou para meus pais no dia seguinte uivarem para a lua do meio-dia em êxtase.
Descobri que na vida, quanto mais experiência se tem, mais as coisas ficam saborosas. Assim como o pequeno curumin um dia se depara com a sabedoria da senhora índia. E assim como dois anos de namoro é muito melhor do que um.

Esta é uma historinha que, ao contrário de outras, começa com pizza. Porque final ela não tem. O sabor pela vida nos acompanha desde o começo e se as coisas caminham tão deliciosas do jeito que são, é porque cada pedacinho acompanha o tempero de uma bela mulher.
Parabéns pelos nossos dois anos de amor.
Dedicado à Carol.




